
O Prontuário do Paciente constitui uma ferramenta fundamental para a prestação do cuidado em saúde, podendo ser definido como um registro padronizado e organizado de toda a informação referente à saúde de um indivíduo, desde o nascimento até a morte. Na prática clínica, um prontuário bem preenchido contém tudo o que foi realizado e todas as indicações do que precisa ser feito, constituindo um documento legítimo para sanar quaisquer dúvidas quanto aos procedimentos médicos e quanto às respostas do organismo do paciente.
Preenchimento do Prontuário no Paciente Internado
O Prontuário do Paciente constitui uma ferramenta fundamental para a prestação do cuidado em saúde, podendo ser definido como um registro padronizado e organizado de toda a informação referente à saúde de um indivíduo, desde o nascimento até a morte. Segundo o Conselho Federal de Medicina brasileiro, o prontuário pode ser entendido como um “documento único, constituído de um conjunto de informações, sinais e imagens registrados, gerados a partir de fatos, acontecimentos e situações sobre a saúde do paciente e a assistência a ele prestada, de caráter legal, sigiloso e científico, que possibilita a comunicação entre membros da equipe multiprofissional e a continuidade da assistência prestada ao indivíduo” (CFM, 2003, resolução nº 1.638/2002, art. 1º).
Na prática clínica, um prontuário bem preenchido contém tudo o que foi realizado e todas as indicações do que precisa ser feito, constituindo um documento legítimo para sanar quaisquer dúvidas quanto aos procedimentos médicos e quanto às respostas do organismo do paciente.

Hoje iremos falar um pouco sobre o prontuário de evolução de pacientes internados. Lembre-se que não existe um certo ou errado. As formas de registro podem ser diferentes entre os serviços e também entre os médicos responsáveis. Entretanto, algumas regras básicas, como legibilidade, organização e clareza das informações preenchidas devem sempre ser seguidas. Além disso, o prontuário é uma das principais ferramentas para a proteção do profissional de saúde. É um documento que prova as condutas tomadas, tendo, inclusive, valor legal.
Nesse contexto, nunca se esqueça de registrar suas impressões e possíveis inconvenientes que possam ter ocorrido… Se, por exemplo, solicitamos o exame de algum marcador e o laboratório do hospital encontra-se sem os reagentes necessários, devemos deixar esse ocorrido registrado de forma clara. Outros exemplos desse tipo incluem: falta de medicamentos, recusa do paciente ou familiares, controle inadequado pela enfermagem, médicos de outras especialidades que não cumprem com suas funções, dentre outros.

Uma forma de iniciar o registro é listar os principais pontos relativos ao doente em questão, na forma de uma “lista de problemas”. Colocamos o dia da internação hospitalar, o uso de medicamentos, as hipóteses diagnósticas iniciais, os diagnósticos confirmados e qualquer outra informação que seja relevante para aquele doente. Observe o exemplo abaixo:
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17/03/2014 # D7 IH # Síndrome do neurônio motor (ELA? Paraneo?) # Síndrome de liberação piramidal # Disástrico-afônico # D2 de lactulona e óleo mineral
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Abrimos o prontuário do paciente e já nos deparamos com uma lista de problemas. Como já é um paciente internado, isto nos auxilia a retomar os pontos principais e a nos situarmos diante do caso. Como visto acima, iniciamos sempre pela data, indicando a seguir o dia de internação hospitalar (IH). Nesse caso, percebemos que é um paciente internado com sintomas neurológicos, sendo as possíveis hipóteses diagnósticas a Esclerose Lateral Amiotrófica ou uma Síndrome paraneoplásica (observe que o médico teve o cuidado de registrar as doenças que a equipe estava investigando, utilizando-se de um ponto interrogativo para deixar claro que o diagnóstico não era definitivo!). O último item, muito importante, nos diz as medicações em uso pelo paciente, deixando claro a duração da terapêutica.
Nosso p
róximo passo será registrar os principais ocorridos, buscando dar ênfase a possíveis queixas (novas ou que persistem), além de nossa impressão sobre o paciente. Por se tratar de um paciente já internado, não há necessidade de realizarmos uma entrevista minuciosa, podemos nos ater apenas aos dados principais, realizando uma anamnese dirigida.
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Paciente restrito ao leito, com SVD (sonda vesical de demora). Permanece disártrico-afônico. Sem queixas álgicas no momento. Permanece sem evacuar há 7 dias. Sono e apetite preservados.
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A seguir, podemos registrar os controles da enfermagem. Constituem em registros dos sinais vitais dos pacientes internados, realizados pela equipe de enfermagem. Geralmente, esse controle é feito mais de uma vez durante a noite, devendo ser registrados todas as aferições com seus respectivos horários.
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FC PA FR Temp 18:00 22:00 02:00 06:00 |
Seguimos, então, com nosso exame físico. O caso que estamos trabalhando apresenta, sem dúvidas, muitas alterações no exame físico. Entretanto, por motivos didáticos, irei exemplificar um modelo de redação de exame físico sem alterações. Dependendo do caso, e das suspeitas diagnósticas, podemos orientar nosso exame físico para a ênfase em algum sistema orgânico.
Atente-se para o significado de algumas siglas, que geralmente encontramos em alguns prontuários (não existe um certo ou errado… tudo depende do costume dos profissionais do serviço em questão!).
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BEG (bom estado geral), LOTE (lúcido e orientado no tempo e espaço), hidratado, normocorado, acianótico, anictérico, afebril Ausência de linfonodomegalias ACV: RR2T, BNF, SS (ritmo regular em 2 tempos, bulhas normofonéticas, sem sopros) AR: MVUA, ARA (murmúrio vesicular universalmente audível, ausência de ruídos adventícios) FC: 80 bpm FR: 18 irpm Abdome: plano, normotenso, RHA + (ruídos hidroaéros presentes), indolor à palpação superficial e profunda, timpanismo difuso, fígado normopalpável, ausência de massas ou visceromegalias. MMII: panturrilhas livres, ausência de edema, pulsos simétricos bilateralmente.
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Por fim, registramos os dados de exames que tenham ficado prontos nesse último dia e finalizamos com nossa conduta. A descrição cuidadosa da conduta é muito importante, pois permitirá que o próximo médico que abrir o prontuário saiba exatamente qual está sendo a evolução daquele caso. Perceba nos exemplos abaixo como, dependendo da última conduta assumida, mudamos totalmente nosso raciocínio quanto ao que esperar do paciente em questão.
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CD: aguardo resultado de biópsia. Peço parecer para a psicologia.
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CD: solicito RNM e TC. Mantenho azitromicina IV.
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CD: resultado positivo da biópsia. Encaminho para cirurgia.
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Ao final do prontuário, o médico deve sempre carimbar e assinar. Se a evolução foi feita por um acadêmico, este deve assiná-lo e escrever “acadêmico sob supervisão” ou simplesmente “ASS”. É claro que o médico supervisor deve carimbar e assinar depois, garantindo a supervisão.
Bem, o principal objetivo dessa conversa de hoje foi chamar a atenção para a importância de um prontuário bem preenchido. Facilita o trabalho da equipe, direciona o raciocínio diagnóstico e resguarda o médico. Uma boa dica é sempre observar como os prontuários são preenchidos no seu serviço, procurando agregar para si características positivas dos diferentes registros.
Um abraço e uma boa semana a todos!
Igor Torturella
